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Materia prima
Ao longo do que são já pelo menos 3 anos, foram surgindo excertos, autênticos esquiços musicais, sem princípio nem fim, uns originais outros decalcados de temas da música tradicional que eram tocados com consciência da sua incompletude e fragilidade. Eram abordados de todos os ângulos, com os instrumentos e músicos possíveis, mas sempre, inevitavelmente, com a sensação desacordada de obra aberta.
A pouco e pouco foram tomando forma e introduzidos num espectáculo, com 1 hora de duração. E claro, perante gente de carne e osso, corações compassados, a música é outra. Certos temas eram tocados um após o outro, sem interrupções, fundidos num só, grande, tema. Ao longo de seis ou sete minutos o público era levado pela mão, desde uma balada intimista até uma dança extrovertida, sendo de quando em vez provocado, desequilibrado, surpreendido com mudanças de humor, contrapontos entre instrumentos...
Mas havia chegado a altura de passar esta experiência musical “a escrito”.
Viagem sonora
A consciência de que cada tema possuía o seu próprio peso, fez com que desde cedo compreendêssemos que o CD em mãos não seria de um trabalho plano. Os temas que apresentávamos em palco não poderiam ser gravados um por um, como uma dúzia de desconcertantes "pinturas" nas paredes frias de um qualquer museu. Não eram todos igualmente complexos, igualmente depurados, igualmente esculpidos. Tratavam-se de apontamentos, qual livro de esboços de aprendiz, que tinham razão de ser nas devidas proporções e relações de uns com os outros, mas que não constituíam, cada um por si, "quadros".
A música em palco brota ao correr da pena, enquanto que a experiência em estúdio, sabíamo-lo de antemão, é repetitiva, recalcada, racional, e inevitavelmente arquitectada. Não seria obviamente o registo de um espectáculo ao vivo, mas sim uma coisa. Algo novo, em 3 dimensões, definível e manipulável, com capa plástica, textos, fotos, desenhos e som que sai de dentro à vontade do seu dono. Uma coisa a que convencionamos chamar CD.
Não haveria ilusões. Seria a música que amamos, num registo honestamente calculado, cerebral e reprodutível vezes sem conta, apontado ao coração do ouvinte.
O CD seria um livro folheado com princípio e fim. E como numa história, teria que ter toda uma série de cenários que condicionassem o "leitor" a ouvir pelos nossos ouvidos e a ver, com os seus próprios olhos fechados, o nosso mundo.
Propusemos por fim, a nós próprios, que não seria mais "música" mas antes uma viagem sonora.
Tema
Como surgiram os comboios nesta história? Do início para o fim, ou do fim para o início?
As artes não são estanques. Os sons sugerem imagens, cheiros, palavra ditas e escritas em papel... O ruído compassado de um comboio, a máquina do "cimbalino", o limpa pára-brisas de um carro numa noite chuvosa...
Puxámos uma ponta do novelo, cortámos o fio, desensarilhámos, atámos nós, demos com o gato, e no fim restava sempre um único fio condutor – a linha do caminho-de-ferro - aquele caminho desenhado, sinal contundente de um veiculo mágico.
Era um portal no qual entrávamos e que, sem demoras nem receios, nos levava da familiar cidade a um lugar remoto, cheio de criaturas peculiares feitas da mesma terra e raízes que nós. Um lugar que já não existe se não naqueles sonhos onde reencontrávamos entes queridos, já partidos... talvez num mesmo comboio prateado...
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